terça-feira, 20 de novembro de 2018

Programa Aldeias

Ajaka Para - Cestaria Guarani Mbya

Relatório Saída de Campo


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
CAMPUS LITORAL NORTE
DEPARTAMENTO INTERDISCIPLINAR
DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Disciplina: Etnodesenvolvimento (DIL01211)
Prof. Dr.: Olavo Ramalho Marques


Isabel Ayala[1]

Relatório de Saída de Campo:
Projeto Botos da Barra em Tramandaí-RS e Aldeia Tekoá Ka’aguy Porã - Retomada Mbyá-Guarani em Maquiné-RS
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INTRODUÇÃO

          Este relatório apresenta as atividades externas ocorridas no dia 20 de outubro de 2018, realizadas como parte do cronograma da disciplina Etnodesenvolvimento (DIL01211), oferecida no Curso Desenvolvimento Regional do Campus Litoral Norte (CLN), na qual estou matriculada no semestre 2018/2. Participaram alunos do Campus Litoral Norte, vinculados às disciplinas Etnodesenvolvimento e Processo de Construção de Identidades, o Professor Olavo Ramalho Marques (ministrante das duas disciplinas), alunos do Campus do Vale de Porto Alegre, do curso Bacharelado em Geografia, vinculados à disciplina Geografia do Brasil e o Professor Marcos Freitas (ministrante da disciplina), formando um grupo de, aproximadamente, 20 pessoas entre docentes e discentes.
          No presente trabalho relato duas visitas técnicas a locais da região do litoral norte do Rio Grande do Sul: Projeto Botos da Barra, em Tramandaí (Destino 1) e Aldeia Tekoá Ka’aguy Porã - Retomada Mbyá-Guarani, em Maquiné (Destino 2). Apresento a seguir o contexto de cada comunidade visitada e o desenvolvimento das atividades.

LOCAIS VISITADOS

Destino 1 - Projeto Botos da Barra
         
           O Projeto Botos da Barra chega à comunidade como ação de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que objetiva esclarecer, difundir e preservar a cooperação entre o homem e a natureza e que procura estabelecer, também, uma relação cultural com a sociedade. Projeto  é realizado pelo Centro de Estudos Costeiros Limnológicos e Marinhos do Instituto de Biociências da UFRGS (CECLIMAR/IB/UFRGS) em parceria com a Petrobrás.  Refere-se a um diálogo da Universidade com a comunidade sobre a pesca cooperativa que existe há muitos anos entre os pescadores artesanais de tarrafa e os botos (golfinhos),  junto à Barra do Rio Tramandaí.  Poderia referir-me apenas à "Pesca Cooperativa junto ao Rio Tramandaí" ou "Botos da Barra do Rio Tramandaí". No entanto, o Projeto Botos da Barra reforça a ideia de harmonia com a natureza e traz informações e material físico de divulgação que nos faz perceber, de forma muito efetiva e afetiva, esta interação socioambiental que ocorre no Sul do Brasil. Através da página do Projeto em uma rede social, descobri que os botos são carinhosamente batizados pelos pescadores e pude ter acesso a alguns vídeos, inclusive, com Geraldona e seu filhote caçula, Ligeirinho.
          Além disso, existe o estudo e a preocupação pela preservação das espécies marinhas através de seu monitoramento e o acompanhamento e subsídios para o fortalecimento desta atividade, o que beneficia também, os pescadores artesanais.  O local desta parceria entre os botos e os pescadores artesanais é a Barra do Rio Tramandaí, na divisa dos municípios de Tramandaí e Imbé, distante 12km do Campus Litoral Norte. Este foi o ponto exato de encontro entre as turmas envolvidas na saída de campo.

Atividade: Para esta atividade foi cedido um microônibus da Universidade, guiado por um motorista profissional. O veículo da UFRGS veio de Porto Alegre, na manhã do dia 20 de outubro, com a turma do Professor Marcos Freitas e passou pelo Campus Litoral Norte e imediações para o embarque dos alunos do litoral e do Professor Olavo Marques. Cheguei no local (Figura 1) da visita técnica, por volta das 10hs e 40min, em companhia da colega Flavia Santos, pois nos deslocamos de forma independente neste início das atividades, por morarmos relativamente mais próximo à Barra do que ao CLN.

Figura 1 - Localização da Barra do Rio Tramandaí.
Fonte: https://goo.gl/maps/jqFZo2TSwJv

          Chegando na Barra encontramos os professores e demais colegas já no local para a  observação aos movimentos de pescadores e golfinhos. Perdemos algumas conversas iniciais e esclarecimentos dos ministrantes, porém, conseguimos explorar o ambiente ao redor e seguir interagindo com nosso grupo acadêmico. Muito interessante ficarmos tão próximos a um canal onde as águas do mar e do rio se encontram. O local é um parque de dunas, rodeado por um lado pelo Oceano Atlântico e por outro pelo Rio Tramandaí. Um local impressionante, onde vemos residências e restaurantes próximos, barcos pequenos atracados no lado de Imbé e um navio de pesca (ou de carga) no mar. Somando tudo isso à presença dos golfinhos, dos pescadores, de pessoas passeando nas areias, arrisco em dizer que este lugar é mágico.     Não chegamos a conversar com os pescadores que estavam em atividade durante nossa visita, a não ser um cumprimento ou saudação cordial por estarmos ali.
          Para nosso deleite, dois golfinhos apareceram e ficaram em atividade com os pescadores até nossa saída. Não cheguei a confirmar se, por acaso, seriam Geraldona e seu filhote. Registros fotográficos foram feitos pelo Professor Olavo e alguns colegas. No entanto, eu não consegui registrar imagem dos botos pois minha câmera de celular não permitiu tal proeza mas, a visão ao vivo já foi gratificante.  A pesca pareceu não ter sido muito proveitosa nesse dia, pelo menos no turno em que estivemos por lá.
          Cheguei a ver um pescador largar uma tainha ao lado de sua bicicleta[2] no momento em que Flavia e eu chegávamos ao encontro do grupo de colegas e professores. Na hora em que estávamos indo embora o peixe ainda estava vivo e ouvi alguém do grupo de alunos comentar algo sobre devolver o "coitado do peixe"  para a água. Comentei, então, que presenciei o momento em que o pescador havia deixado o animal ali (o que salvou, pelo menos, o almoço deste pescador). Brincadeiras à parte, percebi que todos os pescadores usavam a mesma indumentária (Figura 2).
         
 
Figura 2 - Pescador artesanal na Barra do Rio Tramandaí.
Foto: Isabel Ayala - 20/10/2018

          A roupa especial é necessária para sua proteção do frio e as botas de
neoprene[3] os protegem de qualquer material cortante ou perfurante. Notei, também, uma certa quantidade de lixo plástico nas imediações do local da pesca cooperativa, talvez deixada por visitantes ou trazida pelas águas. Alguns peixes mortos também foram vistos na areia. Inclusive, um deles parecia ser um 'bagre" ou "cação". Mas, como não tenho conhecimentos específicos e muito menos científicos neste assunto, prefiro não afirmar.

          Informações e mais detalhes sobre como ocorre a pesca cooperativa, podemos acessar facilmente, no material presente no local (Figura 3).


Figura 3 - Material informativo do Projeto.
Foto: Isabel Ayala. 20/10/2018

          Saindo das areias da Barra, nos direcionamos ao ônibus, onde seguiríamos todos juntos na sequência das atividades, até o final do dia. Partimos dali, rumo à RS 030, caminho do próximo destino.  Após uma parada para o almoço em um restaurante localizado às margens da rodovia, seguimos até o município de Maquiné.


Destino 2 - Retomada Mbyá-Guarani - Aldeia Tekoá Ka’aguy Porã
         
          Em primeiro momento, reconheço que assim como a maioria dos brasileiros, não tenho o conhecimento satisfatório em relação à diversidade de povos indígenas que vivem em nosso país. De acordo com o Censo IBGE 2010, quase novecentas mil pessoas formam as nações indígenas no Brasil, distribuídas em áreas rurais e urbanas. Mas, além de dados técnicos e estatísticos, também é importante entender quem são os Povos Indígenas. Muito antes da chegada dos europeus neste território que atualmente denominamos  América (do Sul, Central e do Norte), haviam seres humanos que habitavam territórios específicos.
          A própria denominação "Povos Indígenas" ou "Índios" deriva do suposto equívoco dos navegadores que pensavam tratar-se da Índia, quando atracaram suas embarcações por este território, há pouco mais de quinhentos anos. No entanto, com o uso recorrente da palavra, até mesmo os próprios indígenas de autodenominam desta forma. A estas populações ou povos antigos, podemos chamar de originários, pelo fato de já estarem nestas terras bem antes da chegada e ocupação dos povos europeus e da imposição de sua cultura ocidental. A maior parte da população indígena no território brasileiro está distribuída em milhares de aldeias por todo o território do país. Estes povos da atualidade, fortemente vinculados de forma cultural e histórica às nações originárias é que podemos chamar de Povos ou Nações Indígenas. E índio é qualquer indivíduo membro destas comunidades e que seja reconhecido como tal, pela própria.    
          Dentre as inúmeras etnias indígenas no Brasil, destacamos neste estudo o Povo Guarani, especialmente, o subgrupo Mbya. Embora os Guarani, assim como a grande maioria da população indígena das Américas, tenham sofrido inúmeras interferências  por séculos e da dispersão de suas aldeias, os Mbya se reconhecem plenamente enquanto grupo diferenciado. Apesar da ocorrência de casamentos entre os subgrupos Guarani (Mbya, Kaiowa e Ñandeva), os Mbya mantêm uma unidade religiosa, características linguísticas[4] e hábitos alimentares bem determinados, que lhes permite reconhecer seus iguais mesmo vivendo em aldeias distantes entre si, independente do território delimitado pelas nações ocidentais (países ou estados dentro de um país).
          No Rio Grande do Sul, desde o dia 27 de janeiro de 2017, vinte famílias Mbya retomaram uma área no Município de Maquiné, na região do litoral norte. Na área em questão, funcionava a Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (FEPAGRO), de responsabilidade do Governo Estadual. Logo após a extinção da fundação, os indígenas criaram uma aldeia no local, reivindicando a demarcação em favor da comunidade Mbya, como luta pelo direito ao futuro, ao mesmo tempo preservando o espaço e a cultura de seus ancestrais. Trata-se de uma luta pela memória de seus antepassados e não uma invasão pois, reivindicam a retomada de um território que já os pertencia desde antes da chegada dos conquistadores europeus.

          Atividade: Chegamos na entrada da aldeia, no interior do município de Maquiné (figura 4). Foi decidido que o ônibus não seguiria pela área indígena, devido ao acesso estreito e às condições da estrada de terra e o mesmo ficou estacionado ao lado do antigo pórtico de entrada da extinta FEPAGRO.

Figura 4 - Entrada da Retomada Mbya Guarani.
Fonte: https://www.flickr.com/photos/alanuiza/40051783871/

          Desembarcamos e seguimos a pé, guiados pelo professor Olavo, por um trecho de aproximadamente cem metros (talvez mais), margeado por arbustos e diversas espécies de árvores, de vários tamanhos, inclusive frutíferas. Neste trecho, passamos por uma construção da aldeia (lado esquerdo da estrada), a qual não chegamos a ter acesso, onde visualizamos algumas mulheres e crianças. Porém, percebi que a dimensão desta construção era quase a mesma do espaço de convivência que nos seria apresentado logo a seguir.
          Ao chegarmos quase ao topo do caminho, que apresentava um certo aclive, já nos foi possível perceber a lateral da construção do espaço de convivência e aprendizado (lado direito da estrada). Ao chegar de fato onde ficaríamos por um considerável tempo, visualizamos algumas pessoas preparando seu almoço coletivo debaixo de uma estrutura coberta. Pelo aroma, assavam carne em fogo de lenha. Várias casas típicas do modo de construção Guarany também foram visualizadas. Logo a nossa frente, então, estava a casa de convivência, onde fomos recebidos pelo Cacique André Benites. Após as saudações de boas vindas e nossos agradecimentos por nos receberem, fomos convidados a entrar no espaço. Como havíamos planejado levar algumas doações, entre alimentos, brinquedos, roupas e livros, deixamos os presentes no interior deste espaço, próximo de onde Cacique André estava acomodado para nos oferecer sua fala. Deixei alguns livros e peças de roupas, como contribuição e agradecimento, os quais ficaram junto às demais doações dos professores e colegas.
           Em seguida, nos apropriamos de alguns banquinhos que estavam dispostos ali e nos  posicionamos em círculo, para ouvirmos o Cacique. Entre vários assuntos, reivindicações, esclarecimentos e desabafos justos, percebemos que nós, os juruás (não-índios) temos uma grande dívida com estas populações descendentes dos povos originários. André também nos informou que o espaço no qual estávamos -  uma escola autônoma Guarani, a Tekó Jeapó - havia sido erguido por diversas pessoas, entre índios e não-índios (Figura 5).

Resultado de imagem para "Tekoá Ka’aguy Porã" Maquiné
Figura 5 - Cacique André Benites e a estrutura inicial
da escola autônoma
Fonte: Internet - Campanha de apoio para construção da Tekó Jeapó


          Arquitetos, pessoas da região, universitários e profissionais diversos, entre brasileiros e outras nacionalidades ajudaram no levante da obra. Inclusive, muitos deixaram suas marcas nos desenhos em alto relevo nas paredes. O prédio com muitas características de bioconstrução, mesmo com detalhes que fogem um pouco da temática ecológica, como a cobertura de telhas industrializadas de fibrocimento (citadas pelo próprio cacique), além de proporcionar a interação e a integração social entre os indivíduos e famílias da comunidade da Retomada, abriga aos visitantes não-índios da aldeia (Figura 6). Para tanto, existe em cada extremo da casa, um mezanino para acomodação de quem, temporariamente, venha conviver com a comunidade da Retomada.

Figura 6 - Escola Guarani - Tekó Jeapó
Foto: Flavia Santos - 20/10/2018

          Enquanto ouvíamos o cacique André, as mulheres, os mais jovens e as crianças mostravam-se presentes aos poucos. As mulheres organizaram seus artesanatos nas bancadas de madeira que haviam dentro do centro de convivência, um jovem dedilhava um violão, outros meninos brincavam com diversos instrumentos. Infelizmente, neste dia não pude adquirir nenhuma peça de arte. Após a fala emocionante de André, agradecemos a oportunidade de estarmos ali e fomos convidados a assistir ao Coral da aldeia, ainda dentro do centro de convivência.
          Assistimos a uma demonstração da cultura Mbyá Guarani, com canções e danças oferecidos pelos jovens da comunidade. Após a apresentação, fomos convidados a realizar um trilha na mata. Imagino que todos os visitantes participaram desta caminhada de reconhecimento e interação, guiada por alguns adolescentes e crianças. O caminho pela mata serviu para dar uma certa emoção ao trajeto. Alguns colegas perdiam a paciência e demonstravam não estar confortáveis em ficar para trás na fila. Imagino que ainda tenhamos muito a aprender com as comunidades tradicionais. Notei a grande diversidade entre vegetação e insetos, no interior da mata. Enfim, no final do trajeto desta trilha proposta por nossos anfitriões, nos deparamos com uma clareira que tratava-se de outra área com mais casas no estilo Mbya Guarani (Figura 7), onde uma jovem porquinha veio nos receber, além de patos, galinhas e alguns cães. Os animais circulam livremente pelo espaço da aldeia.
A imagem pode conter: árvore, planta, céu, grama, atividades ao ar livre e natureza
Figura 7 - Habitações da Aldeia Retomada
Foto: Flavia Santos - 20/10/2018

          Por toda a aldeia, percebi a existência de hortas ou roças. Tanto na trilha, quanto nesta segunda área visitada, notei também, que havia alguns estreitos cursos de água ou, pelo menos, alagadiços por onde conseguíamos atravessar apenas com auxílio de alguma estrutura de madeira, caso não quiséssemos molhar ou deixar os sapatos com lama. Provavelmente, o sucesso das roças está diretamente ligado a esses pontos, o que indica tratar-se de um local que, de fato, possibilite e reforce o modo de viver da nação Mbyá Guarany. Por onde tivemos acesso percebi muitas árvores frutíferas. Provavelmente, em parte, produção de experimentos e pesquisas da extinta FEPAGRO.
          Após algum tempo conhecendo esta parte da aldeia, interagindo com os animais e comendo pitangas, guiados e informados pelo jovem que nos acompanhava desde a trilha, saímos deste local pela mesma estrada de terra a qual nos levou ao centro de convivência, logo na nossa chegada à aldeia. Apenas voltamos um pequeno trecho para voltar à Tekó. O que me deixou em primeiro momento, desorientada, pois ao realizar a trilha me parecia que eu estava muito mais distante do local de origem do que realmente estava. Desconsiderando minha ignorância, em particular, com relação ao espaço visitado, percebi que leigos podem se perder facilmente em qualquer mata fechada.
          Nos reunimos novamente em frente à casa de convivência - a Tekò Jeapó - onde visualizei o Cacique André lendo um dos livros que deixei como presente. Após um tempo de descanso, começamos a nos despedir das pessoas da comunidade que estavam próximas a nós. Me despedi do Cacique André, pedindo permissão para um dia voltar, ajudar e aprender mais. Gentilmente, ele disse que eu seria bem-vinda à aldeia.
          Seguimos então, nosso caminho em direção à entrada/saída (antigo pórtico da FEPAGRO) pra embarcarmos no ônibus da universidade. Investimos aproximadamente umas três horas nesta visita dentro da aldeia. Logo depois, no percurso da volta, os alunos e professores do CLN desembarcaram em pontos estratégicos de Osório e Tramandaí, para sua volta pra casa. O professor Marcos Freitas e seus alunos seguiram para a cidade de Torres-RS, no mesmo ônibus da  Universidade.







CONSIDERAÇÕES FINAIS

          Durante o tempo em que ficamos na Barra, percebi a grandiosidade geográfica do lugar, pois foi minha primeira vez na Barra do Rio Tramandaí. Incrível, olhar para um lado e ver um enorme navio no mar e olhar para  outro lado e testemunhar esta maravilhosa interação entre os seres humanos e os animais, em meio a uma natureza tão singular. Tudo isso muito próximo de um eixo urbano.
          A visita à Retomada, me fez perceber com muito mais clareza a luta destas comunidades para viverem com dignidade e da forma que lhe é de direito, conforme seus ancestrais. Conforme as palavras do Cacique André Benites, transformar os jovens para serem autônomos. Ensinar para o mundo, para viver na sociedade. Daí eles terão autonomia para escolher seu caminho sem regras do juruá. Tendo autonomia e responsabilidade, temos tudo para aprender e fazer[5]. 
            A presença dos Mbya, hoje, nestes espaços de terra que já foram solo de seus antepassados, garante a preservação tanto da mata nativa ou de reflorestamento que nos resta, quanto dos animais que vivem em todo este ecossistema, assim como das fontes de água. Confesso que também jamais havia visitado uma aldeia indígena. Visitar a Aldeia Tekoa Ka’ aguy Porã me fez perceber o quanto devemos às comunidades tradicionais.         
          Agradeço por fazer parte de uma instituição de ensino que trilha seu caminho pela inclusão e que envolve a comunidade acadêmica com as comunidades de seu entorno. Estas visitas foram de suma importância para percebermos a diversidade social e ambiental que existe na nossa região e a relação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com as comunidades tradicionais que estão próximas e, no entanto, na maioria das vezes, longe de nosso olhar, de nosas preocupações, ações e certezas enquanto indivíduos não-índios (juruás) e totalmente inseridos numa sociedade individualista.


REFERÊNCIAS

https://pib.socioambiental.org/pt/Quem_s%C3%A3o#Povos_ind.C3.ADgenas.3F

http://www.amigosdaterrabrasil.org.br/2017/01/30/retomada-guarani-mbya/

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/566588-nhanderu-no-comando-a-retomada-mbya-guarani-de-maquine-rs

https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Guarani_Mbya#Situa.C3.A7.C3.A3o_fundi.C3.A1ria_e_territorialidade

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoio-para-construcao-da-escola-teko-jaepo-em-maquine-rs









[1] Aluna do Curso de Museologia-UFRGS em situação extracurricular no curso de Desenvolvimento Regional - Campus UFRGS Litoral Norte.
[2]Meio usado pelos pescadores da Barra para seu deslocamento e transporte do pescado até suas residências. Usam uma caixa para armazenar o equipamento e  o produto da pesca. Fonte: material informativo do Projeto, junto à entrada do local.
[3] Neoprene foi o primeiro material de borracha sintética a ser produzido em massa, sendo usado inicialmente nas roupas de mergulho, devido a sua vocação isotérmica. Atualmente, pode também ser encontrado em correias de ventilador do carro e em materiais promocionais. As principais características do Neoprene são: flexibilidade, elasticidade, resistência e proteção térmica e elétrica. Fonte: Internet
[4] Minhas irmãs, meus parentes, nosso pai verdadeiro (Nhanderu ete)! ... A nossa palavra sempre que sai da nossa boca é nosso pai que libera, nosso pai que libera a nossa fala para nós todos e para todos os que estão aqui no mundo dentre os nossos parentes. Trecho do discurso de recepção de visitantes Mbya vindos do Brasil, proferido pelo líder espiritual das aldeias de Iguaçu – Misiones, Argentina, 1997.      Fonte: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Guarani_Mbya#L.C3.ADngua
[5] Trecho retirado do site https://www.vakinha.com.br durante campanha de apoio à construção da Tekoa Jeapó. Endereço virtual completo: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoio-para-construcao-da-escola-teko-jaepo-em-maquine-rs

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Ensaio_Projeto Olhares

  
Ensaio: Ação Educativa no Museu do Trabalho com Jovens Recrutas
Projeto Olhares, descobertas e experimentação em Arte Contemporânea


Isabel Ayala[1]


­­­­­­­Resumo: Neste artigo relato a experiência na elaboração e aplicação do projeto de ação educativa "Olhares, descobertas e experimentação em Arte Contemporânea", aplicado em 2016 no Museu do Trabalho, localizado no Centro Histórico de Porto Alegre, com a participação de um grupo de jovens recrutas do Exército Brasileiro. Abordo em forma de ensaio a situação de origem do projeto e as motivações que levaram às escolhas da instituição museal e do público-alvo, assim como as situações ocorridas durante o desenvolvimento do mesmo. Apresento também os resultados, entre eles a aproximação de um museu de arte e ofício com um público que circula em seu entorno e que, no entanto, não conhecia a instituição. O objetivo  deste artigo é mostrar  minhas ações e impressões do início ao fim da aplicação do  Projeto Olhares, uma atividade que trouxe importante contribuição às discentes para suas futuras práticas de educação em museus.

Palavras-chave: ação educativa; educação em museus; Museu do Trabalho; museu e público-alvo; Recrutas do Exército.




Introdução

            O objetivo deste ensaio é apresentar a experiência que tive com o projeto, na qual fui coautora, denominado "Olhares, descobertas e experimentação em Arte Contemporânea", aplicado junto ao Museu do Trabalho, com a participação de jovens recrutas do Exército, em novembro de 2016. O Projeto surgiu a partir da disciplina Educação em Museus do Curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,  proposto pela docente, a Professora Doutora Zita Rosane Possamai, como atividade prática do semestre. Foi lançado então, o desafio de elaboração de um projeto de ação educativa em museu, o qual precisaríamos planejar e aplicar junto a uma instituição museal, considerando a participação presencial de um público específico, ou seja, um exercício de teoria e prática. Definido o tipo de atividade a realizar, mesmo com todas as incertezas possíveis, juntei-me à colega Marta Busnello para realizarmos o projeto juntas[2].
            Textos de autores de  áreas, tais como, educação patrimonial,  educação em museus, educação em arte, foram indicados e trabalhados em sala de aula pela nossa docente no decorrer do semestre, assim como foram realizadas visitas técnicas a museus com a mediação de ex-colegas do Curso de Museologia e futuros colegas de profissão. Alguns autores e autoras abriram nossos olhares para seguir um caminho durante o desenvolvimento do trabalho. Conversas e discussões em sala de aula também nos ajudaram a encontrar o foco do nosso projeto que, em dado momento, mesmo depois de público-alvo e museu definidos, ainda não apresentava um formato bem delineado.
            Embora tivéssemos uma boa intenção em relação ao que simboliza e representa a aplicação de um projeto desta espécie, estávamos ainda confusas em como realizar de forma concreta a proposta e em como expandir ou, até mesmo, limitar nossos objetivos. Por tratar-se, então, de um projeto realizado por duas alunas, apresento neste ensaio as atividades que realizamos juntas assim como as ações de "bastidores" que realizei individualmente, das quais terei um pouco mais de propriedade em relatar, comentar e analisar. Confesso que escrever este ensaio foi mais complicado do que elaborar o projeto em si, pois não foi fácil reorganizar todas as ações já realizadas e ainda fazer uma análise sobre elas. Demorei muito até iniciar de fato a escrita deste relato sobre a experiência, gratificante por sinal, de aplicar esta ação educativa através de um projeto de educação em museu, o qual foi pensado, elaborado e executado por nós, duas alunas ainda na fase inicial do Curso de Museologia.
            Sem a pretensão de mostrar como se pode fazer mas, com o objetivo de mostrar como fizemos, apresentando tanto os acertos quanto as falhas, talvez esse texto torne-se extenso, pois não tenho o talento necessário para deixar algo para trás, sem o devido remorso. Minha intenção é realizar um ensaio onde as reflexões sobre a aplicação propriamente dita da ação educativa junto ao público-alvo dentro do Museu do Trabalho, venham acompanhadas da visão de todo o cenário que propiciou a ideia para este projeto e o trabalho que desenvolvemos antes, durante e após a visita dos jovens à instituição. Este ensaio ou relato de experiência, como preferir, será desenvolvido numa linha de tempo o mais próxima possível da sequência cronológica das ações. A partir daqui, refiro-me ao projeto em questão, como "Projeto Olhares" ou "Olhares". Pretendo apontar o máximo de ações realizadas, as quais considero, de alguma forma, válidas a quem tiver interesse na área e que possa deparar-se com um desafio semelhante ao nosso.


Espaço geográfico

            A seguir, com o objetivo de situar melhor o(a) leitor(a) que talvez não conheça o Centro Histórico de Porto Alegre, apresento o espaço geográfico onde foi desenvolvido o Projeto Olhares, através de um detalhe do mapa da capital. 
Imagem acessada e alterada com as anotações em janeiro/2017
Fonte: Google Maps.

           
            Neste trecho de mapa acima, fiz algumas anotações, apontando as três instituições envolvidas,  onde fica evidente a proximidade entre as sedes das mesmas.

            A próxima imagem trata-se da fachada principal do Museu do Trabalho com seus três pavilhões. Em primeiro plano o pavilhão de exposições e escritório da administração; em segundo plano, o pavilhão da oficina de gravuras; em  terceiro plano, o Teatro do Museu.
Museu do Trabalho. Fachada principal - Rua dos Andradas, 230.
Fonte: Acervo Isabel Ayala

            Além do Museu do trabalho, considero importante apresentar o Quartel da 8ª CSM e o Museu Militar. Os recrutas cumpriram, até o final de 2016, o serviço militar na sede da 8ª CSM - Circunscrição de Serviço Militar, responsável pelo alistamento e incorporação dos cidadãos da metade dos municípios do RS.      Sua sede localiza-se na Rua dos Andradas, em frente ao Museu Militar do CMS e ao lado da Igreja Nossa Senhora das Dores. O Museu Militar do CMS foi o local de encontro com os jovens militares e desde o início, o local de comunicação com o Comando Militar, através da museóloga da instituição, a Tenente Nathália Santos da Costa. 



Quartel da 8ª CSM - Circunscrição de Serviço Militar.
    Rua dos Andradas, 629.
    Fonte: Internet (Google Earth)




Museu Militar do Comando Militar do Sul (MMCMS).         
Rua dos Andradas, 630.
Fonte: Acervo Isabel Ayala

As três instituições envolvidas, com endereço na rua dos Andradas, coração e parte do Corredor Cultural do Centro Histórico de Porto Alegre.


Contato com museus e público

            Tivemos poucos meses para entrar em contato com museus, público, receber as respostas positivas, conhecer a instituição museal e suas atividades, assim como as possibilidades com o público, além de elaborar, organizar e aplicar o projeto em questão. Afinal, toda a ação deveria estar concluída até o final do semestre letivo, que teve seu início no mês de agosto de 2016. O mais coerente seria escolher uma instituição e um público-alvo que estivessem próximos geograficamente. Cabe informar que Marta e eu não tínhamos qualquer relação profissional ou contato direto anterior com a instituição museal objeto de nosso projeto, assim como com a instituição de nosso público-alvo. A escolha dos jovens militares para vivenciar essa experiência junto a um museu, teve como estímulo o fato de meu filho prestar serviço militar neste mesmo ano (2016). Embora ele não faça parte do público participante, por não cumprir seu serviço nas imediações do Centro Histórico, não pude deixar de perceber e "olhar" os  jovens militares como um público-alvo em potencial, iniciando o contato com o Comando Militar do Sul (CMS), logo após a proposta lançada em sala de aula.
            No momento dos primeiros contatos com o CMS, a instituição museal ainda não estava definida, pois aguardávamos as respostas dos museus consultados. Quando entramos em contato com o diretor do Museu do Trabalho, Hugo Silva, informamos a nossa intenção em realizar um projeto que apresentasse o Museu aos Recrutas do Exército que trabalham no Centro Histórico de Porto Alegre, ou seja, seus vizinhos militares. Alguns dias depois, para nossa satisfação, tivemos a concordância do diretor.  A partir deste momento, coloquei-me à disposição do diretor Hugo Silva e ofereci minha colaboração, de forma voluntária, junto às atividades relacionadas às exposições de arte. Meu objetivo era conhecer um pouco do cotidiano do MT, sua história e a oficina de gravuras, além de estreitar laços com a sua equipe de trabalho. Na mesma semana, seguindo as instruções recebidas do Comando Militar do Sul, encaminhamos um ofício junto ao protocolo da instituição, no qual solicitávamos à corporação, a autorização da participação dos jovens militares em um projeto educativo no Museu do Trabalho.
            Nesta fase de contato com o Museu e com o Comando Militar do Sul, não sabíamos ainda, o que exatamente poderíamos desenvolver. Se houvesse resposta negativa de qualquer um dos lados, teríamos que pensar em reiniciar contatos com outras instituições ou possíveis públicos. Mas, para a nossa satisfação, ainda em setembro de 2016, recebi a ligação no meu celular, do militar que apresentou-se como Tenente-Coronel Joel, respondendo ao pedido protocolado na sede do Comando e solicitando que eu entrasse em contato com a Tenente Nathália, para passar mais detalhes e intenções do projeto. Logo adiante, descobrimos que a Tenente Nathália era museóloga do Museu Militar. Estávamos, então, com as duas respostas positivas de colaboração que esperávamos. Museu do Trabalho e jovens recrutas do Exército seriam os atores principais do nosso futuro projeto.
             Paralelamente a esse voluntariado no MT, iniciamos as conversas por telefone, aplicativos de celular e até mesmo encontros presenciais com a Tenente Nathália, para as tratativas a respeito dos detalhes da participação dos jovens recrutas. Dependíamos da organização estrutural do Comando Militar em relação ao efetivo dos jovens militares, para combinarmos o(s) dia(s) e horário(s) para a realização da ação educativa que fosse(m), também, de acordo com a agenda das atividades do Museu Trabalho.  No entanto, o primeiro contato direto com os jovens deu-se apenas no dia da ação, no saguão do Museu Militar, onde nos encontramos com os mesmos para, em seguida, nos deslocarmos em caminhada até o Museu do Trabalho.

           
Voluntariado no Museu e início do Projeto Olhares

            Com a resposta positiva do Museu do Trabalho, a  dificuldade encontrada foi pensar em um projeto para um museu que já sobrevive de suas atividades, com a colaboração de seu público extremamente fiel e muito ligado às artes, principalmente, às artes gráficas. Ao mesmo tempo, tínhamos a  possibilidade de realizar um projeto inédito junto ao MT,  com a escolha de um público que ainda não conhecia o museu e as atividades ali propostas. O Projeto Olhares começou a ser elaborado, então. Sabíamos que o Museu tem em sua estrutura o espaço para exposições de arte, a sala de maquinários, a oficina de gravuras e escultura e o Teatro do Museu[3].
            Começamos a planejar uma atividade dentro da oficina de gravuras, onde pudessem conhecer alguma das técnicas usadas para a produção de arte impressa. Pensamos também, em fazer uma mediação junto à exposição de arte contemporânea que seria instalada em outubro. Embora soubéssemos qual artista seria o autor desta futura exposição, ainda não tínhamos ideia do que ele faria. A sala do maquinário estava há alguns meses, fechada para visitação porém, seria um espaço de circulação durante a ação com os jovens, além de ser o motivo principal de o Museu chamar-se "Museu do Trabalho". Naquela sala de maquinários estaria, também, o motivo inicial da existência da instituição e seria importante considerar os objetos e máquinas que ali se encontravam, mesmo que considerássemos, no momento da mediação, uma reserva técnica do MT.
            Em setembro, havia uma exposição da artista Viviane Pasqual[4], artista de Caxias do Sul, uma importante cidade serrana do Rio Grande do Sul. Placas em metal, desenhos e bordados estavam no salão do Museu.  O diretor do Museu aceitou minha ajuda na desmontagem desta exposição, mediante minha proposta de voluntariado.
A artista Vivi Pasqual (à esquerda) conversando com uma convidada.
Fonte:  Acervo Isabel Ayala

            Pretendendo então, conhecer melhor o Museu e "preparando o terreno" para conquistar a confiança de Hugo participei, em primeiro momento, da palestra de encerramento da Exposição de Viviane Pasqual, colaborando com a organização do espaço de recepção aos convidados, onde também, assisti o pronunciamento da artista e do curador.
            Três dias depois, trabalhei na  desmontagem da mesma exposição e percebi o carinho e o respeito de Hugo e sua funcionária Anne[5], para com a artista e suas obras e segui a mesma linha, ao embalar as obras que não haviam sido vendidas, de forma que ficassem totalmente protegidas, para suportar a viagem de volta à Caxias do Sul.
            Algumas semanas depois, no mesmo espaço, auxiliei diretamente o artista Eduardo Frota[6] na montagem da exposição/intervenção Associações Disjuntivas II, que ficaria instalada até o final de novembro e que teria um papel fundamental em nossa ação de mediação junto ao público-alvo. A exposição de Eduardo Frota seria, então, um dos elementos do nosso projeto, pois ficaria em cartaz até o fim do mês de novembro, o que nos daria condições de planejar e organizar a mesma, junto às demais atividades da ação educativa com os jovens militares. 
                Pessoalmente, esta atividade que durou cerca de uma semana,  foi muito satisfatória pois o tempo de trabalho na montagem desta exposição me permitiu, conhecer e conviver com o artista e perceber sua obra de um jeito diferente, participando de forma direta durante sua criação. Além disso, pude circular pelos espaços do Museu, me aproximar do mestre da oficina de gravuras para iniciarmos com as ideias possíveis para uma dinâmica, iniciar uma relação de amizade com Hugo e Anne, os principais responsáveis pela vida do Museu do Trabalho. Muitas contribuições[7] interessantes foram surgindo durante esse tempo de convívio com a equipe do MT e o Projeto foi tomando forma. Em paralelo a esta atividade "braçal", diálogos recorrentes com Marta eram realizados e nossas ideias foram somando-se até chegarmos, definitivamente, à definição do que faríamos.
Eduardo Frota em ação ao fundo. 
Detalhe de uma escada deslocada.
Fonte: Acervo Isabel Ayala


Hugo Silva (centro da foto) e equipe, durante 
montagem da Exposição 
             Associações Disjuntivas II de Edu Frota.               
Fonte: Acervo Isabel Ayala

O Projeto Olhares

            Nosso projeto tomou forma e estava com as atividades definidas em outubro. Estávamos, então, aptas a aplicar a atividade junto ao grupo de jovens militares. No início de novembro, conforme agendamento prévio entre todos os envolvidos (Comando Militar, Museu do Trabalho, Mestre Paulinho), realizamos o primeiro dia de ação. Após nos encontrarmos com os jovens no saguão do Museu Militar fomos conversando informalmente até o MT. Sem uma descrição[8] muito técnica  das atividades, informo a seguir o que realizamos durante a ação, propriamente dita.
            Apresentamos a parte externa do prédio do Museu do Trabalho, onde haviam grafites de vários artistas, ao mesmo tempo em que conversávamos sobre a arte contemporânea, arte de rua e a própria história do Museu; realizamos uma dinâmica junto à exposição do artista Eduardo Frota, aproximando-os de uma arte intervenção em espaço arquitetônico; visitamos a sala do maquinário e falamos sobre algumas máquinas e equipamentos e realizamos, por fim,  uma atividade na oficina de gravuras, com a demonstração do processo de litografia[9], apresentado pelo mestre Paulinho[10].

    Mestre Paulinho com a primeira turma.
      Fonte: Acervo Isabel Ayala

            Essa atividade na oficina foi especialmente pensada para os jovens militares, pois além de o mestre preparar um material específico para a ação do Projeto Olhares, convidamos por fim, os mesmos a realizar um desenho em uma pedra litográfica.
            Marta e eu havíamos criado um desenho "fantasma" representativo sobre uma pedra e os jovens "divertiram-se" deixando seus traços e suas marcas, criando o que se tornaria futuramente em uma litogravura. Desta primeira turma, formada por dez militares, as gravuras impressas foram guardadas, em primeiro momento, por nós. Duas semanas depois, a segunda turma formada por uma dupla, realizou o mesmo roteiro e produziu outro desenho em outra pedra.

 
     Gravura impressa da primeira turma 
Fonte: Acervo Isabel Ayala


   Gravura impressa da segunda turma (dupla)
Fonte: Acervo Isabel Ayala

       Semanas depois, os desenhos das duas turmas tiveram como resultado doze gravuras impressas originalmente na máquina litográfica. Em dezembro, deixamos à disposição dos jovens, no Museu Militar, as arte-gravuras produzidas por eles.


Sobre os Jovens Recrutas

            Devido à estrutura organizacional do Comando Militar, não tivemos contato prévio com os jovens militares e sequer sabíamos quem seriam os meninos que fariam parte do grupo a ser mediado durante as visitações ao Museu do Trabalho. A própria Tenente Nathália não tinha como saber quem seriam os soldados liberados para a ação educativa que estávamos propondo. No entanto, nossa preocupação a todo momento, sempre foi de proporcionar uma experiência em que somasse algo ao conhecimento ou desconhecimento que eles talvez tivessem do Centro Histórico, especialmente do próprio Museu.
            Não pretendíamos realizar uma ação apenas para cumprir um exercício acadêmico mas, sim, algo que pudesse proporcionar uma experimentação com algo novo aos jovens e que pudesse despertar um novo olhar ao que, muitas vezes, está próximo de qualquer um de nós e que nos distanciamos sem perceber. Em vários momentos, fiquei insegura ao que estávamos propondo, em relação à resposta dos jovens, quando estivessem de fato, sendo deslocados de seu local de trabalho para uma atividade fora de seu ambiente e rotina diária.
            Devido à organização de efetivo no Comando Militar,  nosso projeto foi desenvolvido considerando aplicações do mesmo roteiro para três turmas de recrutas, em datas diferentes. Cada turma, seria com dez soldados, em princípio. No entanto, após ajustes e possibilidades do próprio Comando realizamos a ação com duas turmas.  A primeira turma com nove recrutas e uma Sargento e a segunda turma com dois recrutas. De qualquer forma, foi gratificante, pois no total, onze rapazes e uma jovem Sargento, colaboraram com a ação de uma forma enriquecedora.
            Acredito que conseguimos somar algo aos jovens, assim como aprendemos bastante com eles. Alguns já conheciam ou se interessavam por arte, outros não conheciam qualquer museu do Centro Histórico. Inclusive, passavam por diversas vezes, pelo prédio do MT sem ter ideia do que se tratava. Ficaram muito surpresos com o que experimentaram com a atividade que conseguimos  proporcionar a eles.


 CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Foi um desafio, de fato, realizar um projeto e executar o mesmo em um museu onde não havíamos feito sequer algum estágio e onde não tínhamos contato ou amizade com os profissionais envolvidos em sua administração ou atividades e que conhecíamos apenas como qualquer visitante comum. Além disso, nosso público-alvo, de certa forma, não esperava ser convidado para uma atividade educativa ligada à arte, no horário de serviço e fora dos domínios da instituição que o abriga. Um dado positivo: esse cenário mudou e para melhor, tanto em relação ao Museu do Trabalho quanto ao nosso público-alvo. Fui convidada a estagiar no Museu e a Tenente Nathália informou que o Comando Militar está aberto a novos projetos que venham a surgir. Reconheço que podíamos ter dado mais atenção ao maquinário do MT. Mas este erro será corrigido nos próximos trabalhos junto ao Museu do Trabalho.
            Pretendo levar outras turmas de recrutas em 2017, através de projetos elaborados como integrante, mesmo que provisória, do Museu do Trabalho. Gostaria de perceber como será com os próximos jovens recrutas e até mesmo, se possível, levar alguns dos jovens que participaram deste Olhares, pois alguns continuarão no serviço militar. O público-alvo escolhido é um público original, pelo que percebemos, por não encontrarmos qualquer referência em outros trabalhos. Percebi com este projeto que nós, museólogo(a)s, além de buscar novos olhares do público para com as atividades de um museu, podemos também olhar e perceber estes públicos que estão perto e, ao mesmo tempo, longe dos museus.
            Aprendi que a busca de uma relação museu e público não se resume a pesquisar e organizar o acervo, montar uma exposição, abrir as portas da instituição e aguardar o visitante entrar. Elaborar e executar um projeto de ação educativa, para a disciplina Educação em Museus, possibilitou-me, além de valorizar ainda mais os profissionais que se dedicam a esta área, uma melhor compreensão em relação à responsabilidade social de um(a) profissional em museologia.

           
Referências Bibliográficas

GUARNIERI, Waldisa R. C. Exposição: texto museológico e o contexto cultural. 1986d. In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (Org.) Walsisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. Vol. 1, 1. ed. São Paulo: Pinacoteca do Estado; Secretaria de Estado de Cultura; Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus, 2010. p. 137-143

GRINSPUM, Denise. Educação para o patrimônio: Museu de arte e escola – Responsabilidade compartilhada na formação de públicos. 2000. 131p. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo. p. 7-27 (capitulo 1).

SANTOS, Maria Célia Trigueiros Moura. Museu e educação: conceitos e métodos, 2001. [Artigo extraído do texto produzido para aula inaugural do Curso de Especialização em Museologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, proferida na abertura do Simpósio Internacional “Museu e Educação: conceitos e métodos”, realizado no período de 20 a 25 de agosto].

Projeto Olhares, descobertas e experimentação em Arte Contemporânea. Disponível em: https://belayala.blogspot.com.br/2016/12/projeto-olharesmuseu-do-trabalhojovens.html





[1] Graduanda do Curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Coautora do Projeto Olhares, descobertas e experimentação em Arte Contemporânea, uma atividade exercício da Disciplina Educação em Museus 2016/2, ministrada pela Profª Drª Zita Rosane Possamai.
[2] Em determinados momentos do texto utilizo-me do pronome em primeira pessoa do plural e em outros, em primeira pessoa do singular. Isso deve-se ao fato de o projeto ter sido realizado  em parceria com minha colega Marta Busnello. No entanto, citarei algumas atividades realizadas por mim, individualmente e em caráter de voluntariado, junto ao Museu do Trabalho, durante o processo de elaboração e execução do Projeto.
[3] O Teatro do Museu não entrou no Projeto, pois não tínhamos o tempo suficiente para elaborar uma dinâmica que, além das artes gráficas e a exposição de arte contemporânea, envolvesse as atividades cênicas que ocorrem no MT. No entanto,  não descarto esta ideia para futuros projetos.
[4] Viviane Pasqual - artista de Caxias do Sul, estava com a Exposição Bordados, Desenhos e Placas. Os desenhos e placas, em sua maioria, tratavam da celebração aos imigrantes senegaleses, domiciliados em Caxias, quando em busca de emprego nas indústrias da região. Em geral, o trabalho de Viviane é muito colorido e bem humorado.
[5] Anne, estudante alemã. Trabalha, atualmente, no Museu do Trabalho e em uma ONG que ajuda estrangeiros a conseguirem hospedagem em Porto Alegre.
[6] Eduardo Frota é um artista cearense e já realizou outros  trabalhos em Porto Alegre nos últimos anos. Suas obras causam impacto e, geralmente, transformam o espaço destinado às suas exposições.
[7] Informações sobre os grafites nas paredes externas do prédio do MT e seus respectivos autores foram passadas por Anne e Hugo. Isso possibilitou contato pelas redes sociais com os artistas, os quais contribuíram com informações sobre suas obras, tanto no Museu como em todo o Brasile, inclusive no exterior.
[8] O texto completo do Projeto Olhares, Descobertas e Experimentação em Arte Contemporânea pode ser encontrado no blog   Na Trilha do Saber, através do endereço www.belayala.blogspot.com.br, assim como outras publicações  relacionadas ao Curso de Museologia.
[9] Processo de produção de gravura originada através de um desenho feito em pedra litográfica.
[10] Mestre Paulinho - Paulo Chimendes -  tem formação em litografia, xilogravura, gravura em metal, desenho e escultura.

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